O boletim da AARP (a Associação dos Fundos de Pensão dos Estados Unidos) publicou uma reportagem este mês alertando para o fato de que um em cada três estadunidenses é portador de pré-diabetes, condição que aumenta as chances de evolução para o diabetes tipo 2, mas ainda pode ser revertida (ao contrário do diabetes, que não tem cura). O mais grave é que 90% das pessoas com essa forte tendência ao diabetes nem desconfiam do diagnóstico. Será que a realidade aqui no Brasil é muito diferente dessa dos Estados Unidos? Os médicos de lá dizem que depois dos 45 anos, o risco de ter pré-diabetes só aumenta. Veja na reportagem de Ken Budd, traduzida pela Revista Coroas, respostas às dúvidas mais comuns sobre o tema.
O que é pré-diabetes?

Melhor começar com o que não é pré-diabetes. Não é uma doença, e tampouco apresenta sintomas óbvios. Então por que se preocupar? Porque o pré-diabetes indica alteração no nível de açúcar no sangue, embora ainda não suficientemente alto para ser classificado como diabetes tipo 2. Mas é um sinal de que o diabetes está a caminho, a menos que a pessoa altere hábitos físicos e alimentares. A mensagem importante é que, no pré-diabetes, costuma haver tempo de corrigir o problema se forem adotadas as medidas corretas.

Quem corre mais risco?

Os maiores fatores de risco de pré-diabetes são a obesidade e o sedentarismo, segundo Gregg Simonson, diretor de treinamento profissional e consultor do Centro Internacional de Diabetes no St. Louis Park, de Minnesota (EUA). A genética também é importante: pessoas muito magras, mas com histórico familiar de diabetes, podem contrair pré-diabetes.

Por que o risco de pré-diabetes aumenta em torno dos 45 anos?

As células do corpo requerem insulina (hormônio secretado pelo pâncreas com função de equilibrar o metabolismo dos carboidratos no sangue) para absorver a glicose necessária ao bom funcionamento do organismo. Quando se é jovem, mesmo em casos de maior resistência à insulina (condição em que as células têm dificuldade de absorção da glicose), o pâncreas tem vitalidade para secretar doses extras do hormônio. Com a idade, o órgão torna-se menos eficiente e, consequentemente, mais glicose pode se acumular na corrente sanguínea, segundo explica a nutricionista Hillary Wright, diretora de aconselhamento nutricional do Domar Center for Mind/Body Health, em Waltham, Massachussetts (EUA).

Quais são os sintomas do pré-diabetes?

Nenhum. E, embora um em cada três adultos estadunidenses, aproximadamente, tenha pré-diabetes, 90% dessas pessoas não sabem disso, de acordo com os centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Os exames para medir a glicemia são fortemente recomendados a partir dos 45 anos. Ou mais cedo, quando há fatores de risco, como obesidade e histórico familiar.

O pré-diabetes leva necessariamente ao diabetes?

Cerca de 15% a 30% das pessoas com pré-diabetes desenvolverão diabetes tipo 2 em cinco anos se não perderem peso, ou não fizerem atividades físicas moderadas. E essas porcentagens aumentam à medida que as pessoas envelhecem: um paciente de 45 anos com pré-diabetes tem 74% de chance de ter diabetes tipo 2, diz um estudo publicado no Lancet Diabetes & Endocrinology.

Mas a vantagem de fazer o diagnóstico é que o pré-diabetes geralmente pode ser revertido. Uma redução de peso em torno de 7% pode impedir essa progressão para diabetes tipo 2, de acordo com pesquisa feita com 3 mil adultos com histórico de pré-diabetes, publicada no New England Journal of Medicine em 2002.

“O aumento de peso provoca alterações prejudiciais que dificultam sua capacidade de usar adequadamente a insulina”, diz o endocrinologista Samar Hafida, do Joslin Diabetes Center em Boston. Hafida acrescenta que as pessoas com sobrepeso tornam-se até cinco vezes mais propensas a desenvolver diabetes do que alguém com peso normal.

O horário das refeições é importante?

Alimentos saudáveis, porções modestas durante as refeições e pequenos lanches ao longo do dia ajudam a manter o nível de açúcar no sangue estável. Sentir fome pode significar comer mais à noite, o que é prejudicial. “Se você come a principal refeição somente a noite, pode ser mais difícil para seu corpo gerenciar os carboidratos sem doses extras de insulina”, diz Wright. Pesquisas sugerem que as pessoas são mais resistentes à insulina à noite.

Como o exercício pode ajudar?

O exercício aumenta a “fome de combustível” das células, facilitando o movimento do açúcar para fora do sangue e para dentro das células. “Qualquer pessoa com diabetes que caminhar terá uma redução de açúcar no sangue “, diz Wright. “Esse é apenas o efeito fisiológico do exercício”. Simonson recomenda, além de treinos mais pesados, pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada por semana (cerca de 20 minutos por dia de caminhada).

Um estudo realizado no Duke University Medical Center em Durham, na Carolina do Norte, mostra que para pessoas com pré-diabetes a caminhada enérgica melhorou a tolerância oral à glicose em relação a corrida. O motivo: o exercício de alta intensidade queima principalmente a glicose, enquanto o exercício moderado, mas prolongado, queima a gordura, o que é melhor para o controle do açúcar no sangue a longo prazo.

Existem remédios para pré-diabetes?

Não, não há medicamento mágico. No estudo do Programa de Prevenção de Diabetes, as pessoas que usaram metformina, uma droga pré-diabética comum nos Estados Unidos (e também no Brasil), reduziram seu risco de desenvolver diabetes em 31%. Mas aqueles que se exercitaram e perderam 7% do peso corporal diminuíram o risco em 58%. A metformina é também mais efetiva entre os 25 e 44 anos de idade do que em pessoas mais velhas. “Comida mais saudável e atividade física – essa é a ‘pilula mágica’”, diz Simonson. “A pedra angular de toda a prevenção do diabetes”.

Os médicos recomendam exames anuais para pessoas com mais de 45 anos, sobrepeso ou histórico familiar de diabetes. Para os demais a cada 3 anos.