Por Magali Cabral

Desde 2007, a antropóloga Mirian Goldenberg, 60, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisa o envelhecimento. Em um de seus cinco livros sobre o tema, A Bela Velhice (ed. Record-2013), ela conta que sua inspiração vem da escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-86): “Depois de ler incontáveis vezes A Velhice, decidi aceitar o desafio e ser mais uma a ajudar a romper a conspiração do silêncio que cerca a velhice”, diz a antropóloga nas páginas iniciais do livro. E explica que o objetivo de suas pesquisas não é falar das violências, discriminações e preconceitos sofridos pelos velhos, o que muitos autores já fizeram. “Quero compreender se existe algum caminho para conseguir chegar à última fase da vida de uma maneira mais digna, mais bela e mais feliz”. Na entrevista a seguir, Goldenberg mostra que, de certo modo, a geração que hoje está entre seus 60 e 70 anos, a mesma que revolucionou comportamentos nos anos 1960, já encontrou esse caminho: “’Foda-se o que os outros pensam, foda-se se me acham uma velha ridícula’. Isso é o que eu mais escuto das minhas pesquisadas mais velhas”.

Para quem viveu os anos 1960 e 1970 e a revolução dos costumes promovida pela geração baby boomer (nascidos após a Segunda Guerra), você acha que o mundo hoje está mais careta, mais conservador, ou a gente segue avançando?

Não vejo conservadorismo. É o contrário. O que era vanguarda nos anos 1960 hoje é normal. Não casar virgem, ter vários parceiros. O que eu vejo é que dentro deste universo de mais escolhas, algumas pessoas reagem às mudanças e escolhem uma vida mais tradicional. Mas é uma minoria. A maioria, pelo menos no comportamento e no discurso, absorveu totalmente tudo o que a gente fazia nos anos 1960 e 1970. Mas até hoje é difícil encontrar uma mulher “meio Leila Diniz”, que é a minha ícone dessa revolução comportamental. A Leila era o extremo da liberdade naqueles anos e seria até hoje se estivesse viva. Ela era realmente livre. Mas a liberdade que nós conquistamos, apesar de não conseguirmos ser Leila Diniz, é enorme. Então eu não acho que haja retrocesso. Claro que têm discursos conservadores, mas não é maioria.

As relações homoafetivas são encaradas com mais normalidade do que naquela época?

Acho que hoje ninguém é normal. Mesmo o casamento mais caretinha não se percebe como normal. Eu acho que o modelo de normalidade acabou. É uma minoria que hoje consegue reproduzir aquele modelo de normalidade. Tenho um livro chamado De Perto Ninguém é Normal (Ed. Record, 2004). Acabou a ideia de normal, o que é muito bom porque aí você não precisa se enquadrar em um modelo para se sentir mais normal. Todo mundo hoje sabe que ninguém é normal.

Cada um é o que quiser ser?

Cada um está inventando a sua vida. Lógico que não é todo mundo individual. Porque não há 240 milhões de pessoas inventando uma maneira de ser diferente. Mas, em um espectro de coisas possíveis, cada um se coloca no mundo do jeito que quiser. A minha vida não tem nada a ver com a das minhas amigas, que não tem nada a ver com a das filhas delas. Cada um se coloca no mundo como quiser. Hoje é possível ter relações e projetos bem diferentes e muitos dão muito certo.

E é essa mesma geração de boomers que está mudando agora a forma de se encarar a velhice?

Eu acho que a grande mudança, eu sempre digo isso, é que se o século passado foi o século das mulheres, este século é dos velhos. Essa mesma geração que explodiu esses modelos nos anos 1960 é a geração que está hoje com 60, 70 e até com 80. É uma geração que não restringiu sua vida, seus projetos, seu corpo porque envelheceu. Gosto de dar exemplos mais públicos: Ney Matogrosso é velho? Marieta Severo é velha? Caetano e Gil são velhos? Não dá mais para chamar essas pessoas de velhas. São todos ageless [sem idade], são inclassificáveis porque continuam sendo como sempre foram. Essa é grande mudança.

Não existe mais aquilo de agora eu sou velho e não posso mais fazer isso ou aquilo. Eu sou velha e sou a Mirian Goldenberg. Se eu sempre gostei de minissaia, não vou usar uma saia no joelho. Se eu sempre usei biquíni, não vou usar maiô. Se eu sempre usei calça jeans, camiseta e tênis, não vou mudar. E não preciso mais mudar. Antes havia uma coerção social muito mais forte. Hoje não. Eu saio com a roupa que eu quero e foda-se. Essa é a palavra que eu mais escuto das minhas pesquisadas mais velhas. Foda-se o que os outros pensam. Foda-se se acharem que eu sou uma velha ridícula. Foda-se o que os outros vão pensar. É uma revolução do foda-se. Pode por aí, porque são elas que falam.

Você acha que do lado masculino tem esse mesmo foda-se?

Não, eles não tem isso. Primeiro porque eles não mudam tanto. Segundo, eles não são tão coagidos a mudar. Terceiro porque eles sempre tiveram muito mais liberdade para ser o que quisessem. E as mulheres não. Eu tenho cinco livros sobre esse tema. Começa com Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade, depois vem Corpo, Envelhecimento e Felicidade, em seguida A Bela Velhice, depois Velho é Lindo e a agora acabei de lançar Por que os Homens Preferem as Mulheres mais Velhas? Todos são baseados em pesquisas, mas A Bela Velhice é o livro mais importante para entender essa revolução do foda-se.

Já que estamos falando em livros, no texto, A velhice, Simone de Beauvoir escreveu em 1970 que o idoso é uma espécie de objeto incômodo, inútil. Você acha que hoje ela escreveria diferente?

Acho que não. Esse livro poderia ser o mesmo. Só que eu estou pesquisando uma outra face da velhice que ela fala também, mas fala muito pouco. O meu livro A Bela Velhice surge do livro dela, mas lá é uma coisa muito periférica. E eu decidi mostrar que a bela velhice não é uma possibilidade tão periférica assim. É uma possibilidade bem grande.

É que talvez em 1970 não fosse ainda?

Não, acho que não. Mas o que ela retrata em A velhice existe ainda hoje.

E o que tem de bom na velhice?

Eu gosto de falar uma coisa que uma pesquisada minha diz. Não acho que existe nada de bom, nem nada de ruim. Acho que é simplesmente diferente como todas as fases da vida. Tem conquistas possíveis e a liberdade eu acho que é a mais importante para as mulheres. Tem a valorização do tempo, a realização de novos projetos. Aprende-se a dizer não, a ligar o botão do foda-se. Tem as amizades. Também tem coisas ruins na velhice. Não é fácil olhar o espelho, ver as rugas, sentir problemas de saúde, engordar com facilidade, tem os preconceitos, algumas portas se fecham. Depende muito de como você lida com tudo isso. De como construiu a sua vida. Se você sempre valorizou muito a beleza, vai ser dura demais a velhice. Mas se  valorizou a vida intelectual, como eu, a vida pode ser bem produtiva na velhice.

Quem exerce uma atividade intelectual ou artística tem mais facilidade de tocar essa fase da vida do que alguém que se dedicou aos serviços braçais, ou burocráticos?

Não é fácil para ninguém. Eu acho que o fato de ter projetos e ser apaixonada, e eu sou muito apaixonada pelas coisas que eu faço, ajuda a enfrentar as dificuldades. Mas não é fácil a minha vida. Eu trabalho pra caramba.

Sim, mas não foi isso que eu quis dizer com facilidade. O campo de trabalho intelectual é mais flexível em relação à idade. Você, escritora, pode continuar escrevendo livros durante toda a velhice.

Eu tenho amigos de 89 anos, de 94 anos e não é a profissão a responsável por eles estarem bem. Mas é tocar piano, tocar pandeiro, ter amigos, ter uma família bacana. Tem tanta coisa bacana que faz as pessoas viverem bem a velhice. Tem o amor. Às vezes as pessoas se encontram mais velhas. Não é só a profissão que conta. No meu caso, o trabalho me alimenta desde os 16 anos. O trabalho sempre foi a coisa mais importante da minha vida e continua sendo. Para outras pessoas não. A família é mais importante, para outras o amor, a amizade…

O que você acha das pesquisas em universidades norte-americanas e laboratórios de Palo Alto, na Califórnia, que buscam combater a velhice e buscar a “vida eterna”?

Eu tenho aluno de doutorado que vai defender uma tese agora sobre essas teorias de que dá para viver não sei quantos séculos forem “curadas” as células do envelhecimento. Eu espero que dê certo. Eu adoraria viver 1000 anos.

Tem a questão da aparência. E tem o cansaço. Conheço pessoas que já acham muito longa uma vida que dure 100 anos.

Os cientistas vão descobrir uma pele sintética. Ou vão tirar o meu cérebro e implantar no corpo de uma Scarlett Johansson. Eu gostaria de viver muito pois tenho uma vida que eu amo e não vou me cansar nunca. Tem gente que não. Mas se isso acontecer não será para minha geração, nem da próxima. Mas eu gostaria muito e não ligaria se tivesse que ter outro corpo ou outro rosto, se mantivesse os mesmos sentimentos e as mesmas ideias.

Você vê diferença na forma como o brasileiro encara a velhice. É diferente de outras culturas como a europeia?

A grande diferença é que eles aprenderam a ser velhos e a conviver com velhos há mais tempo. E nós estamos aprendendo agora, neste século. A gente permanece com a ideia de que o Brasil é um país de jovens e não é mais. É uma questão de tempo para se enxergar a velhice de outra forma. Mas isso já esta ocorrendo, só que não de forma tão natural como na França, na Alemanha, na Inglaterra. Lá eles convivem com o envelhecimento desde o pós-guerra.

Você escreveu recentemente em sua coluna do jornal Folha de S. Paulo, que uma amiga sua não gostava de ser chamada de velha, nem de coroa, nem de idosa. E você pediu sugestões aos leitores sobre como classificar os 60+. Recebeu muitas sugestões?

Recebi. Ganhou o termo “velho”. Mas teve uma, por exemplo, que disse gostar de “flor de outono”. Outra falou “jovem há mais tempo”, mas o que ganhou disparado foi “velho”. Mas a minha amiga Nalva [que motivou a coluna] fez 89 anos e disse que prefere dizer que está na flor de outono. Ela lançou recentemente um livro de poesias, gravou vários CDs de músicas clássicas e românticas ao piano, tem um livro de memórias. É impressionante a produção dela. E não é só ela. Tenho vários amigos de 89, de 91, 92, 94 anos. Eu amo essas pessoas. Aliás, eu agora só quero ser amiga delas.

Por quê?

Porque são as pessoas que mais me mostram que é possível eu chegar aos 90 com alegria, paixão, amizade, doçura. São pessoas maravilhosas e, para mim, não são velhas nem nada, são pessoas com quem eu quero conviver. Agora, eu escolho as pessoas com quem eu quero conviver. E as mais velhas são as mais bacanas.